sábado, 4 de julho de 2009

A Minh'alma é triste

A Minh'alma é triste

Minh'alma é triste como a voz do sino carpindo o morto sobre a laje fria;
E doce e grave qual no templo um hino,
Ou como a prece ao desmair do dia.
Se passa um bote com as velas soltas,
Minh'alma o segue n'amplidão dos mares;
E longas horas acompanha as voltas
Das andorinhas recortando os ares.
Às vezes, louca, num cismar perdida,
Minha'alma triste vai vagando à toa,
Bem como a folha que do sul batida
Bóia nas águas de gentil lagoa!
E como a rola que em sentida queixa
O bosque acorda desde o albor da aurora,
Minh'alma em notas de chorosa endeixa
Lamenta os sonhos que já tive outrora.
Dizem que há gozos no correr doa anos!...
Só eu não sei em que o prazer consiste,
- Pobre ludíbrio de cruéis enganos, Perdi os risos - a minh'alma é triste"
(Casimiro de Abreu, 1839-1860)